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A Origem da Espécie: o novo Planeta dos Macacos é um filmão!

Eu nunca tinha ouvido falar em Rupert Wyatt e sua estreia, The Scapist, não foi lá muito badalada na mídia. Filmes de origem para recauchutar franquias estão na moda desde Batman Begins. O trailer era intrigante, mas dizia pouco. Então, fui assistir a Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes) com uma mão na frente e outra atrás, sem saber o que esperar.

Puta filmão, gente!
Explico:

Wyatt é um diretor que se preocupou em cativar o grande público em vez de agradar fanboys da franquia, pensando e levando seus principais atores a pensarem como macacos, não de máscaras nem digitais, mas numa interpretação que visasse a probabilidade de evolução dos mesmos e como isso se encaixaria de forma coerente numa trama que narra, sim, a origem de uma espécie.

O filme todo é trabalhado em cima de duas características: a verossimilhança dos símios e a caricatura dos humanos.

Cadê a Fanta Uva?

O que alguns colegas vem criticando como ponto fraco da película, eu vejo como propósito de contraste no plot. O esforçado James Franco desenvolve um envolvimento tocante com seu doente pai, interpretado por John Lithgow – a agonia em pessoa. Do elenco humano, são os melhores e colaboram muito inicialmente, se diluindo necessariamente no decorrer do filme, dando espaço ao verdadeiro protagonista: Cesar, o chimpanzé.

Freida Pinto não fede nem cheira. Sua Caroline surge como interesse romântico para Will Rodman (Franco), mas não vemos esse namoro acontecer. Porque não é preciso. Porque não é o foco. Freida está ali, toda linda, enfeitando o elenco, para unicamente cumprir um despiste no clímax. E o que dizer de Brian Cox e Tom Felton? O primeiro, cínico e nojento, como sempre soube fazer; e o segundo maligno e canastrão, como vilão mexicano – se torna odioso facilmente, fazendo com que o público torça por sua punição, tal qual Draco Malfoy. Os demais atores cumprem bem seus papéis e não fazem feio, mas são caricatos, forçados e planos. Vide o vizinho irritadiço e azarado, que existe como peça no tabuleiro para conduzir outra parte do futuro trama em uma esperada sequência.

Precisando, tamô aí.

A semente do desdém é plantada desde a primeira cena do filme, quando vemos vários símios sendo capturados de forma brutal e levados para pesquisas científicas. Quando o caos chega e cabeças começam a rolar, nós, pessoas, torcemos para os símios, e não para nossos iguais. A história é construída de forma rica e plausível a fim de revelar a perversidade humana (pelo menos perante a questão ambiental), gradualmente, vitimando as criaturas que trarão a revolução através da evolução. Nós somos os vilões e de forma alguma isso causa efeito reverso no espetáculo que é assistir a essa obra, repleta de emoção e cenas de ação (todas elas) incrivelmente elaboradas.

O diretor apela para tensão de minuto a minuto, desenvolvendo diálogos ágeis entre humanos e sensibilidade na atuação dos símios, que te envolvem com um olhar, mesmo que pelo ponto de vista de Cesar. Desde já, a cena do “NÃO!” entra na categoria de antológica para a sétima arte. Assusta e causa estranheza. Lembro-me até agora do silêncio súbito do público antes e depois do ato, para só segundos depois esboçarem alguma reação. Sensacional; até aplaudi.

NÃO!

A Weta e o sempre surpreendente Andy Serkis atingem o ponto máximo de qualidade no uso da captação de performance (também conhecido como motion capture). A empresa de Peter Jackson aperfeiçoa a tecnologia, já suprema com Gollum e King Kong, enquanto Serkis se supera incorporando um superchimpanzé totalmente tridimensional. Em nenhum momento somos levados a crer que aqueles símios são digitais. Do pelo ao olhar, tudo convence, tudo soa realista e, em cenas mais poéticas, até assustam. Assustam bastante; talvez pelo ar de estranheza proposital, considerando que processamos aquela informação como real, ou mesmo pela revolta da macacada.

O respeito sutil de Wyatt para a filmografia original será notada pelos fãs da franquia (com referências aqui e acolá, da Estátua da Liberdade, duma frase no fim até o nome Olhos Brilhantes), ao mesmo tempo que não invade espaço que não deve – e com isso não ofende – ele também mantém o ritmo necessário para o público leigo, que tem um espetáculo bem amarrado, que não cansa, mas seduz, usando da tensão e emoção para segurar a galera na cadeira. O diretor não se preocupa com continuações (mesmo com ganchos para o futuro que já esperamos, conhecendo a série) e é extremamente feliz nas sequências que remetem a filmes de prisão. Ele consegue apresentar um complexo dinamismo do abrigo para símios sem utilizar diálogos, sustentando-se apenas pelo visual, enriquecendo a obra de forma única e nada cansativa. Uma aula para futuros diretores.

Não há maneiras de se achar graça ou bobeira em ter símios humanizados, já que o plot trata isso de forma bem natural, nem séria nem cômica demais.

Acompanhar o crescimento de Cesar, do bebezinho que tira suspiros de ninfetas na plateia, passando pela adolescência rebelde que nos faz rir, até a icônica fase adulta, que traz belas analogias ao ditador romano homônimo, faz com que o público fique imerso em seus conflitos entre amizade, honra e lealdade à raça, que ironicamente encontram paralelos nos dilemas de Marcus Brutus e movem o protagonista nessa película de ação e suspense de alto nível. O Júlio Cesar, ditador, só desperta mesmo no terceiro ato. O efeito dominó é lindo e trágico na medida.

Seria injusto não citar o orangotango Maurice (velho mestre) e o gorila Buck (braço direito honrado). Não esquecendo também do símio capanga idiota, da bonitinha dócil e do feioso vilanesco com potencial para o futuro. É a morte de alguns deles, e não de outros humanos, que nos fazem ter aquele aperto no coração e até, quem sabe, chorar.

O clímax na batalha na ponte Golden Gate é muito, muito foda. Táticas militares de ambos os lados, sacrifícios, mortes saborosas, cavalos e pólvora para lá e para cá, aquela correria e o imune humano assistindo o inevitável. Praticamente uma poesia em sequência de ação brilhante, que há muito se perdeu em Hollywood, com efeitos gratuitos e vomitados sem propósito (vide Michael Bay e seu deplorável Transformers).

Vai encarar, mermão?

Por tudo isso, considero esta uma das melhores películas de 2011 (e só não encerro como o maior, porque o ano ainda não acabou).
— Nota: 10

Planeta dos Macacos: A Origem é uma experiência cinematográfica inesquecível. Assista, reveja e depois tenha em sua estante.
Um dos filmes mais humanos que já vi.

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