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Homem-Aranha begins: uma origem contemporânea para o mais espetacular dos super-heróis

Ei, estou ressuscitando o blog só para essa singela opinião, hein?

Vamolá (sem spoilers):

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Um professor certa vez me disse que há apenas dez histórias no mundo. Mas para mim existe apenas uma única história: quem sou eu?

Essa é a última frase emblemática do filme, dita por uma professora de Peter Parker. A busca pela identidade, dada através das origens (entenda-se: pais) é o motor desse reboot, comandado agora por Marc Webb (500 Dias com Ela).

Sendo este um diretor que se mostrou hábil em lidar com relações humanas + a química de Andrew Garfield com Emma Stone — também fora das telas –, Peter Parker e Gwen Stacy tiveram uma colaboração apurada no tratamento de seus personagens nas telonas.

Emma é de longe a melhor atriz em tela. Não pela beleza e simpatia que exala 24h (e também), mas justamente por ter incorporado o 1º grande amor do teioso exatamente como Stan Lee e Steve Ditko conceberam. Dos pés a cabeça, no vestuário, do conceito ao olhar, até a linguagem corporal: ela mais do que tridimensionalizou a personagem, a tornou crível e apaixonante — assim como tinha de ser. Ainda mais considerando seu esperado e trágico destino no futuro.

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Webb extrai o melhor de seus atores e o roteiro pretensioso de Alvin Sargent, James Vanderbilt e Steve Kloves lhe deu liberdade o suficiente para explorar diversas relações, construindo com isso o que a Sony realmente queria: uma cinessérie (dias atrás oficializaram a trilogia). Peter e Gwen funcionam, naturalmente.

SAM RAIMI E A TRILOGIA ANTIGA

Olha, antes de tudo, sou um dos maiores fãs do Homem-Aranha que conheço. Já amava a Gwen antes de Peter, sempre considerei o Lagarto, o Duende VerdeShocker e o Escorpião os melhores vilões do herói, e ainda guardo na gaveta o roteiro duma trama de HQ fechada que pretendo um dia contar sobre o teioso — e ganhar a atenção da Marvel (ah, sonha…?).

Não renego o que Raimi fez há exatamente 10 anos (ok, pelos excessos de coincidências e personagens, HA3 foi um erro mesmo, vamos ignorá-lo aqui). Ele tinha uma visão romântica da obra, setentista até, com atuações cômicas, situações inverossímeis (dentro do que uma proposta dessa pode considerar como tal), e um direcionamento de plot muito mais calcado e fiel a origem do teioso nos quadrinhos. Sim, o filme 1 e 2 são ótimos, tenho toda trilogia completa num box aqui, revejo sempre, vou continuar adorando.

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Agora vamos confessar: Tobey Maguire sempre foi um Peter bundão, e no fim ainda se tornou um emo. Sempre pareceu velho demais para um colegial, não convencia como alguém que se tornaria o Aranha, nem mesmo tentando se inspirar em sua contraparte quadrinhística. Ele era engraçado e dramático numa medida que Garfield ainda está penando pra alcançar — só que sinceramente nunca foi o Peter Parker. Considerando que o Homem-Aranha de Raimi era em grande parte CG e sem o seu essencial (o super bom-humor, piadista, que usa da máscara para extravasar o que não consegue sem — como muitos perfis de redes sociais, digamos), então tínhamos pouco do personagem (sobre a comparação e análise de ambos os uniformes, leiam este meu post de 2011). O que salvavam ele e o filme eram o roteiro mesmo, primorosos, com vilões bem construídos e um melodrama mexicano que sempre fez parte da vida desgraçada da identidade secreta do teioso.

E o que dizer de Kirsten Dunst, desprovida de beleza e talento, como Mary Jane Watson? Sempre achei a atriz a maior falha de Raimi para sua cinessérie, mesmo com a cena antológica que ele conseguiu conceber — e que Webb ainda não chegou perto, e já deveria passar a se preocupar.

Não vou me aprofundar no sentido comercial da coisa. Está bem dividida a opinião de todos sobre o quão “cedo” foi rebootar o Aranha nas telonas. Depois do fiasco de HA3, Raimi até tentou — finalmente — trazer o Lagarto pra uma quarta continuação, mas as diferenças criativas e o desgaste pelo último filme de 2007 o fizeram debandar junto de todo o elenco. O que nem acho ruim. Se estava falhando, o personagem merecia um novo fôlego mesmo. Se isso deveria ser agora ou daqui ainda mais uns anos… Bem, não acho o fim do mundo.

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Este Homem-Aranha mantém todos os princípios e conceitos estabelecidos por Stan Lee e Steve Ditko, mas também carrega um bocado da versão Ultimate, modernizada, e que conversa melhor com o novo público, desta geração (nada mais justo, e a pretensão aqui é justificável). Peter usa lentes de contato em vez de óculos, recebe ligações de tio Ben em seu celular, anda de skate, e usa de tecnologia holográfica para rascunhar fórmulas científicas. Enquanto que o Aranha de 2002 parecia um tanto quanto retrô — inclusive no sentido de contexto e cenário –, este é crível quanto a nossa realidade atual, não só tecnologicamente, como também na linguagem e situações. O novo cabeça de teia é esguio, jovem e verossímil em todos esses sentidos, algo que o anterior não conseguiu atingir (as cenas antológicas da luta contra o Duende Verde e o parar do trem são impressionantes, mas não sustentam o personagem). O espectador nota esse lance crível, por exemplo, na cena que o bullie Flash Thompson fica condolente com a recente perda de seu principal desafeto no colégio. Não há caricaturas, os personagens são humanos, são possíveis, e isso ajuda muito neste reboot, acreditem.

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É nítido que os roteiristas e produtores planejaram e almejaram uma trilogia para contar o que querem (“a história não contada” continua não contada, isso será obviamente o motor de toda a série a partir daqui), por isso introduziram elementos da obra original de forma sutil neste enredo — que está mais para um prólogo, como foi Capitão América – O Primeiro Vingador — como um Clarim Diário aqui, fotos estratégicas de Peter ali, o rapaz gênio por herança genética, a relação de omissão com tia May etc. Elementos que serão introduzidos, assim espero, no momento certo nas continuações (a segunda prevista para 2014). O maior dos cliffhangers, porém, está em Norman Osborn (o maior vilão do Aranha, compare-o ao Coringa com Batman e Lex Luthor com Superman) — o futuro Duende Verde. Sua Oscorp é o principal cenário deste longa, com passagens importantes, mas também uma trama de pano de fundo (sobre o passado e que fim deu os pais de Peter) que vai alimentar os demais enredos, inclusive como provável justificativa de novos vilões.

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Li por aí alguns justificando seu ranço com o reboot principalmente porque existiam algumas situações espelhadas ao primeiro filme de 2002, de Sam Raimi (que aliás tinha ali pretensões distintas deste: ele queria fazer algo no mesmo nível do Superman de Richard Dooner/1978, e de certa forma conseguiu). Sim, estas “situações espelhadas” existem e até geram um pequeno incômodo, entre algumas: a morte principal que motiva o personagem, o funeral no desfecho (e não de quem vocês imaginam), a feitura do uniforme, a “voz na cabeça” do vilão verde, o patriotismo americano em ação (única cena realmente forçada do filme).

Considerando que poderia gerar ecos recontando a nova origem, Webb e os roteiristas se preocuparam e mostrar esse elementos de uma forma sutilmente diferenciada. Então, aquela ‘morte-motivadora’ também é iniciada por uma briga, mas muda-se o contexto de luta-livre por um mercadinho qualquer; a feitura do uniforme e o uso das novas habilidades se dá com takes rápidos, à lá ritmo MTV, sem muita poesia em cima; a descoberta dos poderes acontece dentro dum vagão de metrô, não mais em becos de Nova York — e diga-se de passagem, ficou tão bom quanto, e divertido, o que é sempre tudo a ver com o protagonista.

Mas há também os novos elementos, alguns destes que fizeram muita falta na trilogia da década passada, como os sensacionais lançadores de teia. Sério, quando vi as primeiras fotos, depois os teaser que os mostravam, vibrei legal. Parker é um jovem gênio, isso é um dos elementos principais do rapaz (assim como a zuação estão enraizadas ao Homem-Aranha, muito bem representadas nesta película). Temos Gwen Stacy como a primeira namorada dele — ufa, respeito a cronologia amorosa, pelo menos. E sim, eu torço ferrenhamente para que a cena dela, Duende Verde e Aranha, ocorra num dos filmes futuros, para transformar o herói pela 2ª vez, levá-lo a um novo patamar, e então apresentar MJ, como compensação, amadurecimento e uma forma de superação nisso tudo. Será que eles teriam coragem de fazê-lo em Hollywood? Eu gostaria que sim. Ah, eu preciso dizer: os movimentos do teioso estão espetaculares! Ele se move exatamente como nos quadrinhos, acredito até que seja a maior homenagem desse filme para a mídia de origem — e o melhor, menos CG e muito dublê. Deixou tudo mais orgânico, funcional e visceral, sem tirar o charme.

Para fechar essa parte, é bom ressaltar: Denis Leary, Martin Sheen e Sally Field estão ótimos e muito à vontade como Capitão Stacytio Ben e tia May, respectivamente. Os três são o coração do filme.

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Já Rhys Ifans, um ator competente, se mostra o elemento mais fraco do filme. Seu personagem não carrega profundidade e a motivação não convence (como nos quadrinhos, que ainda trazia sua família como carga pesada). Mesmo sem esposa e filho nas telonas, o Dr. Curt Connors poderia ter sido melhor trabalhado na relação com os pais de Peter e Norma Osborn, uma origem qualquer para perda de seu braço direito e uma drama mínimo para motivá-lo a realizar o plano megalomaníaco que tem com Nova York (que lá no clímax também soa forçado, assim como sua mudança repentina de personalidade, já que diferente das HQs, aqui ele mantém a sobriedade… Então, por que, meus deuses?).

O vilão não chega a estragar o filme e, numa base otimista, vocês conseguirão relevá-lo em prol de todo o restante, considerando-o um desafio físico e bruto ao qual o Aranha tem de passar nesse seu primeiro estágio como super-herói. Foi assim que o vi, e de fato, nesse sentido, o Lagarto funciona bem. Mas que merecia um tratamento melhor, não há dúvida.

Eu adoro o Lagarto, já disse isso, não? Enfim, ele colabora para as melhores cenas de ação do filme (e que considero muito superiores a qualquer uma contra vilões da trilogia antiga). Atentem-se a cena do esgoto, da ponte e da torre Oscorp — mas principalmente a do colégio, que também tira altos risos com a esperada participação especial de Stan Lee.

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O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS

Este título pertence ao filme de 2006 de Cao Hamburger, numa visão interessante sobre a ditadura no Brasil. Nada a ver com os Parker, acalmem-se. Eu vejo esse reboot como um filme de duas frentes: fixação e deslumbre. O primeiro pertence a Peter. Sim, é a revolta e busca por vingança sobre o tio Ben que gera o símbolo do Homem-Aranha (mas não fez sentido algum o bandido da estrela desaparecer — ou ser esquecido — lá pelas tantas; teria ele também sido guardado para continuações? Afe), mas é a fixação do rapaz em saber mais sobre os pais — que fugiram às pressas quando ele era criança — que move toda a trama. Depois de encontrar uma pasta no porão, Peter decide que é o momento de descobrir o que aconteceu (a tal “história não contada”) e sai em uma jornada pessoal em busca de respostas — e acaba encontrando o antigo amigo de seu pai, Dr. Connors, criando de certa forma a fórmula que gera o Lagarto, sendo picado de forma esquisitona pela aranha (um emblema tratado de forma bizarro, que poderia ter ficado memorável) e então todo o resto, até chegar a se tornar o super-herói, mas ainda ficar sem resposta alguma. Aliás, outro que some é o Irrfan Khan, um auxiliar direto de Osborn (que “está morrendo”, uia), Rajit Ratha. Também para continuação? Enfim, essa pretensão acabou deixando o enredo muito solto, mas numa visão geral não atrapalha a obra, que entrega uma história de origem interessante — mas aquém a Batman Begins, de quem bebe um tiquinho de fonte. Bem, essa é a fixação. A do protagonista pelos pais.

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O deslumbre é ligado ao vilão. O Dr. Connors não é ambicioso, só quer curar o braço e talvez ajudar outros mutilados como ele. Mas disso para querer transformar toda uma população em répteis, do dia pra noite, com fumacinha em contagem regressiva, é demais, não? Ok, deixemos isso pra lá. O fato é que Connors fica deslumbrado com seu visual fodão, sua força sobre-humana e toda a gama de habilidades que ganha como essa espécie sempre no topo da evolução (como o próprio lembra em algum momento). É um vilão motivado pelo deslumbre, talvez por isso seja tão “fraco” como personagem. Seu desfecho também não é muito satisfatório, apesar de crível, e serve mais para alimentar a mitologia que os roteiristas criaram para essa cinessérie do que qualquer outra coisa. Então, no desfecho, o deslumbre dele passa e o doutor volta ao bom-senso? Não, não é a mesma coisa, nem funciona tão bem quanto ao sentimento de culpa do Dr. Octupus de HA2 do passado. Mas ok.

Aliás, duas coisas: este é o segundo filme (também de super-herói) no ano que vejo um clímax com bomba/ armamento tecnológico/ dimensional sobre o topo de um grande edifício. Há dezenas com tal clichê. Funciona, é um bom clímax, só estou ressaltando que não tem nada de original. E por fim, como todo bom filme da Marvel, tem cenas pós-créditos. Eu esperava mais e o desfecho dela mais confundiu do que instigou. Imaginação? Presença ameaçadora (espero que seja este)? Não ficou claro, não.

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Eu sei qual é o seu nome. A questão é: será que você sabe?

Diz Gwen Stacy para um titubeante Peter Parker nos corredores da Midtown High School, logo nos primeiros momentos de O Espetacular Homem-Aranha. Pouco tempo depois, uma recepcionista vai mais além:

Você está tendo dificuldade em se encontrar?

A mulher pergunta a um ainda mais confuso rapaz (a conversa é a respeito de um crachá, mas serve maravilhosamente aos propósitos da trama).

Este filme de origem apresentou bons elementos, e deixou muitas questões propositalmente sem solução, não ganhando o emblema e a força do respectivo Aranha de 2002, mas com uma visão geral muito mais interessante e completa, da qual farei questão de acompanhar bem de pertinho. Afinal, a obra de Webb tem foco na paternidade bem reforçada, tanto quanto foi a de Raimi, isso é importante observar.  Uma nota 8 é bem justa a essa película. A identidade ainda será uma jornada que roteiristas e diretor terão de encontrar para esse reboot escapar bem das comparações.

Um Homem-Aranha a mais, porém, é sempre bem-vindo. Ainda mais se produzido com boa vontade, como este. Confiram, que vale a pena. Só não se prendam muito a essas teias iniciais. Ainda há uma história aqui para ser contada.

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A Origem da Espécie: o novo Planeta dos Macacos é um filmão!

Eu nunca tinha ouvido falar em Rupert Wyatt e sua estreia, The Scapist, não foi lá muito badalada na mídia. Filmes de origem para recauchutar franquias estão na moda desde Batman Begins. O trailer era intrigante, mas dizia pouco. Então, fui assistir a Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes) com uma mão na frente e outra atrás, sem saber o que esperar.

Puta filmão, gente!
Explico:

Wyatt é um diretor que se preocupou em cativar o grande público em vez de agradar fanboys da franquia, pensando e levando seus principais atores a pensarem como macacos, não de máscaras nem digitais, mas numa interpretação que visasse a probabilidade de evolução dos mesmos e como isso se encaixaria de forma coerente numa trama que narra, sim, a origem de uma espécie.

O filme todo é trabalhado em cima de duas características: a verossimilhança dos símios e a caricatura dos humanos.

Cadê a Fanta Uva?

O que alguns colegas vem criticando como ponto fraco da película, eu vejo como propósito de contraste no plot. O esforçado James Franco desenvolve um envolvimento tocante com seu doente pai, interpretado por John Lithgow – a agonia em pessoa. Do elenco humano, são os melhores e colaboram muito inicialmente, se diluindo necessariamente no decorrer do filme, dando espaço ao verdadeiro protagonista: Cesar, o chimpanzé.

Freida Pinto não fede nem cheira. Sua Caroline surge como interesse romântico para Will Rodman (Franco), mas não vemos esse namoro acontecer. Porque não é preciso. Porque não é o foco. Freida está ali, toda linda, enfeitando o elenco, para unicamente cumprir um despiste no clímax. E o que dizer de Brian Cox e Tom Felton? O primeiro, cínico e nojento, como sempre soube fazer; e o segundo maligno e canastrão, como vilão mexicano – se torna odioso facilmente, fazendo com que o público torça por sua punição, tal qual Draco Malfoy. Os demais atores cumprem bem seus papéis e não fazem feio, mas são caricatos, forçados e planos. Vide o vizinho irritadiço e azarado, que existe como peça no tabuleiro para conduzir outra parte do futuro trama em uma esperada sequência.

Precisando, tamô aí.

A semente do desdém é plantada desde a primeira cena do filme, quando vemos vários símios sendo capturados de forma brutal e levados para pesquisas científicas. Quando o caos chega e cabeças começam a rolar, nós, pessoas, torcemos para os símios, e não para nossos iguais. A história é construída de forma rica e plausível a fim de revelar a perversidade humana (pelo menos perante a questão ambiental), gradualmente, vitimando as criaturas que trarão a revolução através da evolução. Nós somos os vilões e de forma alguma isso causa efeito reverso no espetáculo que é assistir a essa obra, repleta de emoção e cenas de ação (todas elas) incrivelmente elaboradas.

O diretor apela para tensão de minuto a minuto, desenvolvendo diálogos ágeis entre humanos e sensibilidade na atuação dos símios, que te envolvem com um olhar, mesmo que pelo ponto de vista de Cesar. Desde já, a cena do “NÃO!” entra na categoria de antológica para a sétima arte. Assusta e causa estranheza. Lembro-me até agora do silêncio súbito do público antes e depois do ato, para só segundos depois esboçarem alguma reação. Sensacional; até aplaudi.

NÃO!

A Weta e o sempre surpreendente Andy Serkis atingem o ponto máximo de qualidade no uso da captação de performance (também conhecido como motion capture). A empresa de Peter Jackson aperfeiçoa a tecnologia, já suprema com Gollum e King Kong, enquanto Serkis se supera incorporando um superchimpanzé totalmente tridimensional. Em nenhum momento somos levados a crer que aqueles símios são digitais. Do pelo ao olhar, tudo convence, tudo soa realista e, em cenas mais poéticas, até assustam. Assustam bastante; talvez pelo ar de estranheza proposital, considerando que processamos aquela informação como real, ou mesmo pela revolta da macacada.

O respeito sutil de Wyatt para a filmografia original será notada pelos fãs da franquia (com referências aqui e acolá, da Estátua da Liberdade, duma frase no fim até o nome Olhos Brilhantes), ao mesmo tempo que não invade espaço que não deve – e com isso não ofende – ele também mantém o ritmo necessário para o público leigo, que tem um espetáculo bem amarrado, que não cansa, mas seduz, usando da tensão e emoção para segurar a galera na cadeira. O diretor não se preocupa com continuações (mesmo com ganchos para o futuro que já esperamos, conhecendo a série) e é extremamente feliz nas sequências que remetem a filmes de prisão. Ele consegue apresentar um complexo dinamismo do abrigo para símios sem utilizar diálogos, sustentando-se apenas pelo visual, enriquecendo a obra de forma única e nada cansativa. Uma aula para futuros diretores.

Não há maneiras de se achar graça ou bobeira em ter símios humanizados, já que o plot trata isso de forma bem natural, nem séria nem cômica demais.

Acompanhar o crescimento de Cesar, do bebezinho que tira suspiros de ninfetas na plateia, passando pela adolescência rebelde que nos faz rir, até a icônica fase adulta, que traz belas analogias ao ditador romano homônimo, faz com que o público fique imerso em seus conflitos entre amizade, honra e lealdade à raça, que ironicamente encontram paralelos nos dilemas de Marcus Brutus e movem o protagonista nessa película de ação e suspense de alto nível. O Júlio Cesar, ditador, só desperta mesmo no terceiro ato. O efeito dominó é lindo e trágico na medida.

Seria injusto não citar o orangotango Maurice (velho mestre) e o gorila Buck (braço direito honrado). Não esquecendo também do símio capanga idiota, da bonitinha dócil e do feioso vilanesco com potencial para o futuro. É a morte de alguns deles, e não de outros humanos, que nos fazem ter aquele aperto no coração e até, quem sabe, chorar.

O clímax na batalha na ponte Golden Gate é muito, muito foda. Táticas militares de ambos os lados, sacrifícios, mortes saborosas, cavalos e pólvora para lá e para cá, aquela correria e o imune humano assistindo o inevitável. Praticamente uma poesia em sequência de ação brilhante, que há muito se perdeu em Hollywood, com efeitos gratuitos e vomitados sem propósito (vide Michael Bay e seu deplorável Transformers).

Vai encarar, mermão?

Por tudo isso, considero esta uma das melhores películas de 2011 (e só não encerro como o maior, porque o ano ainda não acabou).
— Nota: 10

Planeta dos Macacos: A Origem é uma experiência cinematográfica inesquecível. Assista, reveja e depois tenha em sua estante.
Um dos filmes mais humanos que já vi.

Fantasticon: teaser do evento

O Fantasticon é um simpósio de literatura fantástica (ficção científica, fantasia e terror) que acontece nos dias 12, 13 e 14 de agosto, na Biblioteca Viriato Corrêa, em São Paulo, pertinho do metrô Vila Mariana. Mais aqui: http://fantasticon.com.br/

Estarei lá, autografando Necrópolis, a prévia de O Coletor de Almas e dos demais livros em que fui publicado.
Apareça, a entrada é gratuita e o evento será épico.

Story Touch: o software para roteiristas, diretores e analistas de roteiro

Paulo Morelli lança em 14 de junho seu mais novo projeto. Não se trata, no entanto, de um longa metragem chegando nos cinemas (ele é realizador de Cidade dos Homens, Viva Voz e O Preço da Paz, além de sócio da O2 Filmes).

Depois de três anos de desenvolvimento, Morelli apresenta ao mercado o Story Touch. Trata-se de um software completo de desenvolvimento dramático em que é possível escrever e analisar o roteiro ao mesmo tempo. O programa não julga o “certo” e o “errado”, simplesmente porque não há essa categorização em dramaturgia. O que ele faz é, em linhas muito gerais, organizar a cabeça do roteirista, que geralmente trabalha de maneira caótica e desorganizada.

E esse auxílio é possível pelo fato de o Story Touch dar concretude às impressões e sensações do próprio autor. Através de uma imagem – um gráfico, por exemplo – ele traduz as impressões subjetivas e sensações do escritor. O que era uma impressão difusa ou mesmo uma intuição de quem escreve é mostrada de maneira clara. Ou seja, o software não faz análises pura e simplesmente; ele capta as apreciações do próprio autor e as apresenta através de imagens.

Morelli define o Story Touch como o “final cut” do roteiro:

É como se fosse mesmo uma partitura. Em primeiro lugar, é muito fácil ‘navegar’ pelo roteiro e perceber visualmente os tamanhos das cenas (e portanto o ritmo da história). Além disso, você tem diversas opções de recorte e análise da dramaturgia. Mas é importante deixar claro que o Story Touch não tem a pretensão de ensinar ninguém a escrever um bom roteiro. Como o próprio nome diz, ‘Ferramentas de Dramaturgia’, o Story Touch é apenas uma ferramenta para se analisar a dramaturgia de um roteiro.

Fernando Meirelles, sócio de Morelli na O2 Filmes, completa:

O Story Touch permite ao roteirista ter uma noção clara do nível de gordura, de açúcar, de sal ou de hormônios em sua história. Poder visualizar graficamente um roteiro completo em apenas uma página certamente revelará muitos aspectos escondidos ao autor.

FAZENDO USO DO SOFTWARE

Serão lançadas quatro versões; uma delas será totalmente gratuita.
O download poderá ser feito a partir de junho, através do site www.storytouch.com.
O que as diferencia é o nível de sofisticação de determinadas seções. Por exemplo, para quem tem o modelo mais completo, será possível criar ilimitados objetivos /obstáculos para seus personagens. Já para quem está trabalhando com a versão mais simples será possível fazer esse acompanhamento de um único objetivo / obstáculo. Além disso, os modelos mais avançados permitem escrever comentários (modelo Analista) ou ver tabelas com o resumo das cenas (modelo TOP).

Pelo site também era possível ter acesso a diversos vídeos tutoriais que auxiliavam o usuário a utilizar essa nova ferramenta, mas foram tirados do ar recentemente.

Há ainda dois exemplos que podem ser baixados: estão lá os roteiros de Cidade de Deus (Bráulio Mantovani) e Hamlet (William Shakespeare). É possível, através desses arquivos, entender melhor como o Story Touch trabalha.

O que esse novo software também promove é um dimensionamento real da história. Através dele, o autor pode perceber o quão dramática é determinada cena e o que ela representa dentro da história como um todo. O usuário elenca exatamente qual trecho quer ter analisado pelo sistema e, através dele, consegue visualizar curvas dramáticas e ver se há harmonia com o restante do texto, por meio de gráficos e tabelas.

SÃO ANALISADOS OS SEGUINTES TÓPICOS

  • Macro Estrutura: é possível lançar os principais eventos dramáticos de uma história, como pontos de virada, dilema, clímax.
  • Personagens: todos os personagens com fala são detectados automaticamente; os cinco com maior participação são categorizados como principais. Há ainda os secundários e extras. Há uma cor para cada um deles e eles podem ser classificados com valor de 1 a 10, de acordo com sua importância na cena.
  • Emoções: seguem-se as emoções dos personagens no decorrer de toda a trama, como tristeza, solidão e alegria. No caso de Hamlet, por exemplo, estão colocadas ali loucura, vingança, fingimento e sinceridade. Há uma cor para cada uma delas e diferentes graduações, de acordo com a intensidade da cena.
  • Valores: acompanha os valores apresentados na história e como eles são percebidos ao longo na narrativa, como traição / lealdade, fingimento / sinceridade.
  • Objetivo / Obstáculo: define-se quais são os objetivos do personagem e é possível acompanhar a trajetória dele em sua busca.
  • Plantar / Colher (Setup / Payoff): permite acompanhar a costura da história, deixando evidente como algumas cenas se relacionam.
  • Janela das Cenas: vê-se o roteiro todo numa única janela. É possível navegar por atos, sequências e cenas.
  • Tom e Ritmo: é possível acompanhar com precisão o tom do roteiro (como sombrio ou leve) e o ritmo (como lento ou rápido). No modelo que está disponível no Story Touch pontua-se uma cena de ritmo acelerado e outra mais lenta, em Cidade de Deus.
  • Página ou Tempo: aqui é dada a opção de se visualizar a história por páginas (em 1/8 de página) ou por tempo, através de uma estimativa. Essa ferramenta é muito útil durante a criação de uma nova história, momento no qual cada cena é ainda apenas um parágrafo, uma ideia. Nesse estágio, usa-se o tempo estimado da cena (um parágrafo pode se transformar numa cena de vários minutos), e com isso, o escritor pode ter uma noção mais clara da dimensão da sua história.

O lançamento ocorre nessa terça, 14 de junho, no anexo do Espaço Unibanco (Rua Augusta, 1470, SP), com exibição do curta “Conversas com Roteiristas” e logo após coquetel com presença dos criadores do software e dos roteiristas entrevistados (você pode assistir todos aqui – recomendo fortemente).

O site: http://www.storytouch.com/
O blog: http://www.storytouch.com/blog
Twitter: http://twitter.com/StoryTouch

Confesso estar ansioso para experimentar mais essa ferramenta na criação e construção de histórias. Se puder, compareça. Se baixar o software, comente aqui o que achou. Bye!

“Poção”: A Banda Mais Nerd da Cidade

Imagino que muitos estejam cansados de paródias sobre “Oração” do hit A Banda Mais Bonita da Cidade, com seu refrão-chiclete, que independente da qualidade, tá na boca do povo. Inclusive dos nerds.

Troque o magrelo indie pelo gordo padrão geek com um game em vez de gravador, jogue todos os elementos potencialmente nerds no cenário e na edição, deixe as meninas de fora e pimba: “Poção”. Bem editado, curto e engraçado. Vale conferir, mas só entende quem é nerd: