X-Men: filme de Primeira Classe

mutantes atemporais

Esqueça o trabalho porco de Photoshop na campanha do filme. Esqueça o trocadilho deste título. Veja X-Men – Primeira Classe.

Tem o inspirado diretor Matthew Vaughn (que arrebentou com Hit Girl em Kick-Ass), que sabe cadenciar cenas de ação, prosa e didática como poucos da nova safra hollywoodiana, gerenciado e batizado por Bryan Singer (que aqui produz, mas foi diretor dos dois primeiros filmes mutantes). Juntos, geraram o que eu gosto de chamar de “o Batman Begins da Marvel”.

Tá. Todo o fã marvete sabe que a formação original dos X-Men se dá com Ciclope, Fera, Garota Marvel, Homem de Gelo e Anjo; sabe que o vilão Sebastian Shaw não foi um nazista, mas sim um Silvio Santos do mal; sabe que a Rainha Branca é sexy e manipuladora acima da média, algo que não rola na película; sabe que a origem de Magneto é outra e seu encontro com Xavier é diferente, blábláblá. O que isso afeta neste filme? Nada.

A série mutante nas telonas tem sua própria cronologia, sua própria mitologia, com seus próprios acertos e erros, e ainda que mantenha a essência das HQs, procura uma voz mais coerente para contar essa rica analogia que debate de forma inteligente o racismo, a aceitação na sociedade, ciência e guerra.

Sabe, Primeira Classe é bem amarradinho e faz o dever de casa, mas com bom gosto: começo didático sem ser chato, revelando os 3 personagens mais importantes da trama: Magneto, Xavier e Mística. Ou: o nazismo representado pelo vilão Sith e seu prodígio pupilo; o bon vivant Charles Xavier e seu altruísmo inalterável; Raven, sua auto-aceitação e sua surpreendente instabilidade sexual.

Aliás, Mística é a personagem mais interessante do filme ao lado do óbvio protagonista, Magneto — afinal, era pra ter tido um filme solo, que acabou gerando este, que, inteligentemente, une o útil ao agradável, com plot de sua origem e da formação dos mutantes X. A misteriosa menina (interpretada pela apaixonante Jennifer Lawrence) aparece roubando a geladeira de Charles quando eram crianças e se torna sua irmã (ou amante? Ou amiga? Vá saber) durante toda a formação do rapaz em Oxford.

"Se não me beijar agora, outro vai".

O ciúmes dela para com o professor é visível, mas assim que surge o jovem cientista Hank McCoy (Nicholas Hoult, também conhecido como um Grande Garoto) descobre o amor juvenil, o que parece rumar para um namorico gostosinho de acompanhar. Mas Vaughn não é adepto do romance populesco e logo forma um quadrado amoroso, colocando Eric Lehnsherr na parada e revirando os corações do avesso. Primeira Classe enriquece a personagem não nas cenas de ação (das quais ela pouco participa), mas sim no fator amor (que é o que ela representa na história), revelando sua natureza instável, camaleônica, da pessoa que se adapta as situações diversas de acordo com a conveniência — e, principalmente nessa idade em que vive, de acordo com o coração.
Elogio aqui o link bem bolado que fizeram desta com a atriz que interpretou Mística nos filmes anteriores, Rebecca Romijn-Stamos, numa breve e sedutora transformação.

"Declaração de Amor a Mística" deveria ser o título deste post

Falando em links (ou easter eggs), Primeira Classe solta vários deles em diferentes momentos da película, amarrando bem o passado ao futuro, mesmo que isso não seja essencial para a trama. Vemos de forma velada Ciclope, Tempestade e outros mutantes; e o que dizer do onipresente futuro-vilão William Stryker? Palmas também para a cena com o Wolverine no bar, de longe a mais engraçada: ri de chorar na sala, juro.

"Fica, Eric, vai ter Mística!"

E quem diria que o futuro careca foi um dia xavecador de universitárias, beberrão e popular entre sua turma, hein? Mas como tudo em Primeira Classe lembra um cadinho da estrutura de Star Wars, Xavier faz o papel do bom moço. Sim, o competente James McAvoy (que já foi até Procurado, veja só) é um genérico de Obi-Wan Kenobi. Idealista, conduz todos para o caminho do bem, é um Líder nato, hábil na instrução do uso do poder alheio etc. A construção deste personagem se dá de forma natural, funcional, nada truncada, o que acaba contrastando perfeitamente com o ponto negativo representado por Eric no decorrer do plot.

A equipe de jovens mutantes que Charles e Eric montam é divertida, coerente (para os jovens dos anos 60, para os jovens de agora, enfim) e a saída para os codinomes foi perfeita. Baladinha na sede do governo? Boa! Gostosas com asas? Ótimo! Dinâmica de grupo prática, com encaixe. Poderes legais, aprendizado no uso destes (mais um link para a trilogia anterior), didático, na medida.

Oliver Platt, Azazel (pai de Noturno e boa sorte em sua amarra com a cronologia na continuação, tá?), Rainha Branca e Maré Selvagem são coadjuvantes de luxo, mezzo apáticos, mas ficam bem para efeito visual e de ação no filme.

Relacionando mais uma vez a saga dos Jedis ao dos mutantes, temos aqui o vilão Sebastian Shaw como um tipo de Lorde Sith e Eric como seu pupilo, que odeia o mestre e precisa superá-lo (mas seguirá, obviamente, seus princípios).  O excepcional Michael Fassbender (que já foi capanga em Jonah Hex e um nazista em Inglourious Basterds) rouba a história como Magneto (o Darth Vader conceitual), em sua atuação intensa, orgânica, a flor da pele. Sem exageros, o protótipo perfeito para Ian McKellen. Sim, todos os atores estão à vontade em seus papéis e Fassbender vai além, nitidamente.

Kevin Bacon, excelente como sempre. Sozinho, uma presença. Vilão bonachão e, como todos estão chamando por aí: válido até para um Austin Powers. E já traz a ferramenta do seu sucessor: o capacete. Mas é a moeda o elemento-chave do filme, observe. Repare como Primeira Classe emula o primeiro filme dos X-Men. Temos um vilão com poderes terríveis, que possui uma base secreta e um plano maligno (Sebastian Shaw – Magneto), com 3 asseclas (Azazel – Dentes de Sabre, Maré Selvagem – Grouxo, Rainha Branca / Angel – Mística) e que fica vulnerável no clímax (se der, compare o interior do submarino com o alto da Estátua da Liberdade, são cenas quase idênticas). Esse plot espelhado é lindo, enriquece o que a Fox tenta construir de cronologia para os mutantes nas telonas. Esqueça o filme solo de Wolverine e bola pra frente!

Guerra Fria rolando, Cuba no desfecho e Moira McTaggert usando duma licença poética pra linkar os mutantes à CIA, assim tendo toda a infraestrutura do que será, no futuro, a base dos X-Men (na verdade, a fortuna de Charles colabora também, claro). Vou aguardar a continuação, pois rende mais 2 filmes pulando as décadas, sem erro.

— Nota: 9

Neo para balas. Magneto para mísseis. Pense nisso.
Vá ver, vai.

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Comentários

  • Wallace "Wakko" Morais  On 07/06/2011 at 14:11

    Ponto 1 – Rolou uma mutretinha pela cena do Wolverine, porque todo mundo que viu comigo achou que isso podia ter estragado o filme. Falei “como poderia ter estragado? O Wolverine sequer olha na cara deles!”. TODOS CONCORDA e acha daora a cena!

    Ponto 2 – Azazel foi O Coadjuvante. A chuva de corpos foi a melhor cena do filme todo.

    Ponto 3 – Como assim tu não fala nada do maconheiro berrento? Eu achei bem loko o Banshee.

  • Aline Valek  On 08/06/2011 at 20:07

    Eles conseguiram fazer muito bem o que falharam miseravelmente nos outros filmes: construir uma história envolvente apesar de não totalmente fieis aos quadrinhos.

    Além disso, a construção dos personagens ficou muito mais profunda e complexa, o que de forma alguma prejudicou as cenas de ação. Pelo contrário: nunca desviar de mísseis foi tão emocionante: a gente não consegue esquecer do menino que teve a mãe morta porque não conseguiu mover uma simples moeda.

    Belo post, você fez uma observação muito apurada e trouxe pontos muitos interessantes.

    PS: Sou mais fã da Mística do que nunca, mas O QUE QUE FOI ESSE MAGNETO HEIN? nossa!

    PS2: o filme respeitou os quadrinhos até em algo que acho irritante: essa mania meio “chico xavier” do charles colocar os dedos nas têmporas quando usa seu poder psíquico. :p

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