Entrevista com o editor de “Silver Spoon”: o novo mangá da criadora de FullMetal Alchemist

Primavera de 2011 e os lançamentos da Shukan Shonen Sunday (Shogakukan) não param. A autora Hiromu Arakawa, que vendeu mais de 50 milhões de cópias no total com Hagaren (abreviação do título japonês de FullMetal Alchemist, Hagane no Renkinjutsushi), a grande estrela Takuya Mitsuda (autor de MAJOR) estreando nova série e o popular Pokémon, estão na publicação. Outros mangás, como do gênero gourmet e moda, trazem novos ventos a edição.

Convenientemente chamado de “arrastão”, a frente da reformulação da revista, a Comic Natalie entrevistou o responsável por tudo isso. O que está acontecendo agora com a Sunday? Qual a sua meta, até onde pretende chegar? Masaki Nawata assumiu o posto de editor-chefe em 2009 e aqui ele apresenta o novo line up e sua estrutura. Qual será o mundo que Hiromu Arakawa nos mostrará? Confira:

O quinto lançamento é a nova obra de Hiromu Arakawa. Do que se trata a história desse mangá?

Ainda não posso falar muito, nesse momento ainda estamos fechando o projeto, trabalhando nos últimos detalhes. Podemos adiantar que não será Fantasia como as obras anteriores da autora. Será um mangá sobre a juventude, com Hokkaido como palco.

Hokkaido é a terra natal da autora, não é?

Sim. Ela estudou no colégio rural de Hokkaido, sua família tinha uma fazenda e essas experiências são a base da história. Um conto sobre juventude com um colégio rural como palco. É disso que estamos falando.

Arakawa publicou anteriormente o one-shot Raiden-18 na Sunday GX. Esse novo projeto na Sunday teve problemas quanto ao formato?

Nosso editor de campo sempre a visitava e conversava sobre isso. Claro, outras grandes revistas também iam pedir serialização, provavelmente. Dentre esses, o motivo de ela escolher a Sunday deve ter sido o tema. Pelo conteúdo da série, mais do que as outras, combinava com a Sunday e por isso ela escolheu.

Raiden-18

Quer dizer que o editor da Sunday disse a ela: “você não faria um mangá sobre a juventude em um colégio rural?” ?

Pra dizer a verdade, não sei se o editor disse, ou se durante as conversas com Arakawa chegou ao ponto em que ele falou: “você também pode fazer isso?”. Essa parte é papo de campo, então eu não sei direito. Mas dizer a ela: “não faça Fantasia de novo, mas sim um conto de juventude colegial” é a cara da Sunday, não é?

Existe um boato de que antes de estrear, Arakawa fez um motikomi (apresentação de trabalho ao editor) para a Sunday. Confere?

Já ouvi esse boato, mas parece que ela nunca fez isso.

É a primeira série semanal de Arakawa. Até agora ela trabalhou mensalmente, num outro ritmo. Existe a previsão de um trabalho mais pesado?

Claro. Não sabemos se ela vai aguentar publicar toda semana, se depois de alguns capítulos ela vai tirar folga, esse tipo de ritmo. Nós não temos como prever ainda. Vamos lançar e ver como isso vai prosseguir.

De qualquer forma, teremos Arakawa  produzindo um mangá sobre juventude.

Sim, depois de fazer um trabalho daquele porte, a química entre ela e esse palco chamado Shonen Sunday é algo que também me anima muito. Queremos ser uma revista que passa a imagem do mundo como um espelho.

Você se tornou editor-chefe em 2009. Esse  palco chamado Shonen Sunday deve se tornar o que, de acordo com a sua visão?

É difícil dizer em poucas palavras, mas a Sunday ainda é associada a Touch e Urusei Yatsura pela maioria, títulos com mais de 20 anos. Pensando no por que desses títulos serem a cara da Sunday, vimos que essa foi a época em que a revista mais perfeitamente se encaixou.

Realmente, o mundo mudava suas nuances e a revista estava bem sincronizada a comédia romântica.

Sim, eu pensei no que fazia a Sunday ser adorada em sua melhor época e isso era porque ela olhava mais atentamente para o mundo. Semanários devem ser espelhos do mundo.

Você vê o mesmo em revistas de mangá shonen? Não seria algo para a Shuukan Post ou Shukan Bunshun (revistas de notícia, como a Época ou Veja)?

O ritmo semanal é único que poder expressar melhor as mudanças do mundo e isso é o que as iguala. É diferente de fazer mangá num ritmo mensal, pois existe algo especial que só tem nos mangás semanais. É o o que mais esperamos dessa nova leva de mangás. Definir “nós vamos com isso” é o trabalho do editor-chefe.

Colocar as AKB48 (grupo pop de meninas) nessas cinco edições faz parte desse pensamento?

Sim. Pode parecer que estamos montando no sucesso do AKB, mas a linha da Sunday é a de seguir a correnteza de sua época. Existem pessoas dizendo que não querem ensaios em uma revista de mangá, mas também tem aqueles dizendo que a Sunday coloca o que tem de mais quente no cenário e isso é o mais importante.

meninas do grupo AKB48

Isso significa que mais do que encontrar a cara da Sunday, é melhor se deixar levar pela época?

Não, a Sunday é uma revista com 50 anos de história, seu DNA é algo que não muda. Por exemplo, se eu decidir fazer dela algo como a Jump, isso é impossível.  Mas existem autores geniais que se encaixam perfeitamente em sua época e ainda podem fazer um trabalho que funcione com a Sunday. Quando isso vier, a revista vai mudar.

No momento você tem alguma pista do que está por vir?

Não, pra ser sincero. Pra mim, o momento é de olhar o mundo dessa base que é a Sunday. E quando eu sentir que é a hora, vou abraçar com toda a força.

Você está se preparando, não é?

Sim, eu quero dizer ao mundo: “esta é a Sunday!”. Quando um material parecer se encaixar perfeitamente com a época, meu trabalho como editor-chefe é de falar: “nós vamos adiante, é isso aqui!”. Quando Adachi Mitsuru e Rumiko Takahashi surgiram, acho que foi assim.  Mas já se foram 20 anos, não dá pra pedir para eles serem os artilheiros da equipe. Está mais do que na hora de criarmos artilheiros aqui, novatos ou veteranos, não importa. Acho que é o que nos deixou pra trás da Jump e da Magazine. Eu conheço o lado bom e o lado ruim da Sunday.

Talvez seja uma pergunta ofensiva demais, mas não é triste se tornar editor-chefe em uma época em que as vendas caem vertiginosamente? É diferente de pegar em uma época animada.

Pelo contrário. Acho que pegar nessa época difícil foi bom. Eu posso inovar. Quando está tudo bem você se acomoda, mas agora eu posso dizer: “parece legal, então vamos fazer!”. E eu estou na Sunday há quase 20 anos. Conheço o lado bom e o lado ruim, isso eu posso te dizer. Quero usar isso e encarar o desafio.

20 anos é bastante tempo. Você está na Jump desde que se formou?

Fiquei 4 anos na Big Comic no começo. Depois, em 92 acho, me mudei pra Sunday e estou aqui desde então. Meu primeiro trabalho foi Ushio to Tora de Kazuhiro Fujita.

E quais os outros trabalhos que editou?

Não fui eu que arquitetei eles, mas dos grandes, trabalhei com Detective Conan e Inuyasha.  É uma lista longa. Dos autores que estão publicando, acho que já trabalhei com todos. Só estou tempo demais… (risos)

Você disse que se deixar levar pela época era importante, mas em seu background tem esses 20 anos. Não seria esse um dos motivos de Arakawa escolher a Sunday?

Eu acredito que sim. Não usamos dinheiro para puxá-la. A autora não é alguém que se conduz por dinheiro, agora (risos).  Tenho certeza que estamos vendo o nascimento de um trabalho novo até mesmo para a Arakawa, com o esforço que só a Sunday tem.

FMA e Juushin Enbu, dois mangás de sucesso de Arakawa

 

Gin no Saji – Silver Spoon, de Hiromu Arakawa, tem páginas coloridas e a capa na estreia, da edição 19 da Shonen Sunday, lançada ontem, 6 de Abril.

Link original: http://natalie.mu/comic/pp/sunday

Tradução: Fabio Satoshi Sakuda — escritor e tradutor, viveu 10 anos no Japão, onde estudou mais a fundo o país, os costumes e os mangás. Hoje desenvolve trabalhos para a Editora NewPOP, traduzindo mangás e escrevendo. É autor de Rapsódia, ao lado de Carlos Sneak, um dos primeiros títulos da vindoura antologia nacional Ação Magazine, onde também atua como editor dos títulos. Mantém um blog chamado XIL, sobre quadrinhos, sob uma ótica muito mais particular.
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