Sucker Punch | Ou: como fazer o filme otaku perfeito

Essa crítica foi escrita para a Neo Tokyo. Então, nesse espaço, você lerá apenas um resumo do que vai constar na futura edição da revista, da editora Escala. Quando for publicada, avisarei aqui.

Deixei bem concisa a ideia central da minha opinião. Confira:

SUCKER PUNCH: SONHO NERD

Zack Snyder é o sonhador da vez. E ele, dentro de sua condição, realizou aquilo que todo nerd, ou otaku, ou geek, gostaria: conceber uma salada mista de clichês de gênero de fantasia, do terror e de qualquer outro meio da sétima arte, sem barreiras.

Fica claro: Snyder é Babydoll, a menina que se acha a Noiva (Kill Bill, oi?), vingativa, que pira em suas ações rebeldes lutando contra o padrasto ganancioso, estuprador e pedófilo. Ela, que salta janelas sobre a tempestade, faz ameaças, esfaqueia e dispara com sua pistola roubada. Que comete acidentes, mata e que é internada. Afinal, todo herói precisa cair uma vez antes da ascenção.

Sucker Punch: Mundo Surreal (bem condizente o subtítulo nacional, aliás) começa dramático, carregado de fortes emoções que não atingem o espectador, porque é tudo pitoresco demais, firulesco demais, duma plástica linda e claramente com tom de fábula do avesso, com uma Alice genérica, ou melhor, uma Bela Adormecida hard. Assim como Tron: O Legado, Sucker Punch é um grande videoclipe, ele todo montado como tal, dentro do propósito de apresentar a trama em harmonia com a excelente trilha sonora escolhida pelo diretor, que vai de Beatles, Pixies, Björk a The Smiths (atentem-se na excelente Panic Switch do Silversun Pickups).

SONHOS, CAMADAS CRIATIVAS E MUITA IMAGINAÇÃO

Em 1999 fomos apresentados a Matrix. Lá, Neo precisava escolher entre duas pílulas – vermelha ou azul – para adentrar o mundo fantástico (e virtual), onde cresce como alguém e mostra ao mundo a que veio. Salva o dia, a mocinha e derrota o vilão. A estética é de anime, claramente inspirada em muitos (Ghost in the Shell entre eles). A película gerou o bullet time e criou um conceito, herdado belamente por Snyder e seu filme de gostosas fetichistas lutando para escapar do manicômio onde estão confinadas.

Em Sucker Punch, em vez de pílulas, Babydoll dança e usa de sua imaginação para devanear. A música está fortemente atrelada à trama. É essencial.
Em Sucker Punch, a primeira obra original do diretor (que realizou Madrugada dos Mortos, 300, Watchmen, A Lenda dos Guardiões e fará o novo Superman), apresenta o universo do sonhar com mais cores e elementos pitorescos, jogando as personagens em situações impossíveis e impensáveis, mesclando zumbis steampunk com Guerra Mundial, robôs futuristas, samurais feudais com metralhadoras e masmorras sendo invadidas por jatos e mísseis, com direito a orcs e dragões. Amálgama impensável? Mistureba sem nexo? A primeira vista, sim. Essa película pede um visual libertador por essência.

Abra os olhos e a mente. Deixe-se ver o que é preciso.

Acontece que Sucker Punch não é um filme que se sustenta pelo roteiro, mas sim pela estética, pela plástica, pela ação desenvolvida sobre o CG incrível, de fazer inveja a qualquer Senhor dos Anéis ou Avatar, numa apresentação cheia de frescor e do novo, típica do diretor. Não que ele não possua roteiro, possui, mas sua condução é diferenciada de propósito. Porque é o brinquedo de Snyder, nerd assíduo, com milhões na mão, para apresentar ao público sua visão do filme-anime perfeito.

Porque Sucker Punch é o nosso desejo realizado. Nossa válvula de escape do mundo real para um mais divertido. Um trabalho honesto feito com amor.

O ANTI-FINAL E UMA DOSE PARADOXAL

Por essa razão o final é um pecado, um engano prolixo e desnecessário. Essa película seria próxima da perfeição se o desfecho encerrasse quando o inevitável ocorre, no fade out do drama, das mortes e do dessabor da desesperança. Sem saída, o sonho acaba. Mas não, Snyder insiste em explicações e destinos apaziguantes para os que sobrevivem, em crimes desvendados, matando assim a própria proposta ao voltar para a realidade sem razão nem fundamento.

O filme, lógico, não perde o brilho pelos dez minutos finais. Por mais que o excesso de slow-motion (marca registrada dele) insista em nos cansar no terceiro ato com robôs (Eu, Robô e Will Smith agradecem o update no conceito). O encanto reside nos detalhes, nos saltos e nas quedas de impacto sobre o solo (Dragon Ball feelings). Os samurais bem armados estão ali, dando um “oi” para Afro Samurai, enquanto que Quentin Tarantino se orgulha da estética de zumbis nazistas funcionando com mecanismo de relógio e muito vapor (na melhor cena do filme). E o que dizer da grande homenagem a filmes medievais ou fantásticos, com uma invasão orc a um castelo bem protegido? Temos em seu interior até mesmo o corredor finito onde Gollum enfrenta Frodo pelo Um Anel, só que substituídos por dragões ferozes, numa sequência arrasadora de perseguição (que todo filme de ação precisa ter) de um avião fugindo da fera, enquanto dispara sua munição.

Nota: 8. Fique até os créditos.
Agora, você pode acordar.

Sinopse:

Sucker Punch – Mundo Surreal é ambientando na década de 50, uma garota é internada em um sanatório pelo seu padrasto ganancioso, o qual pretende ser o único herdeiro da fortuna deixada pela mãe. Dali em diante, ela tem de enfrentar terapias dolorosas, além da ameaça de que em cinco dias passará por uma sessão de lobotomia. Diante do medo, sua única saída será refugiar-se em sua própria mente, onde criará uma realidade alternativa em que o sanatório é um bordel e suas amigas e ela necessitam passar por mundos diferentes e repletos de dragões, robôs, samurais, nazistas e armamentos pesados a fim de poderem escapar.

Ficha Técnica e Elenco:

EUA, Canadá , 2011 – 110 min. Ação / Fantasia / Ficção científica. Direção: Zack Snyder. Roteiro: Zack Snyder, Steve Shibuya. Emily Browning – Baby Doll, Abbie Cornish – Sweet Pea, Jena Malone – Rocket, Vanessa Hudgens – Blondie, Jamie Chung – Amber, Oscar Isaac – Blue, Carla Gugino – Madame Gorski, Jon Hamm – High Roller, Scott Glenn – The Wiseman.

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Comentários

  • Andriolli Costa  On 01/04/2011 at 18:57

    Douglas, sabe o que eu notei? Sucker Punch recebeu censura PG-13. Quando eu ouvi a premissa, não tinha como não pensar numa história do Moore ou do Gaiman. Tinha o estupro, tinha a violência, o sonho e a ilusão. Agora o filme inteiro não mostra nada. Não tem sangue (sangue de verdade) em momento nenhum. Tá bom que eles lutam com robôs, zumbis nazistas, mas nos orcs e cavaleiros não tinha desculpa. Além disso, qualquer cena mais explícita é totalmente escondida. Quando a prof. de dança vai vestir a Babydoll, estava claro que ela estava de calcinha, mas a camera pega da cintura pra cima. Nem quando o Blue dá um tapa na bunda de uma das meninas isso aparece filmado, só o som. Acho que o filme foi prejudicado por essa decisão de filmagem. Esperava algo mais visceral.

    • Douglas MCT  On 01/04/2011 at 19:02

      Desde o princípio, pelas imagens, teasers e trailers, nunca esperei nada visceral, pra ser sincero.

      Não era isso que o filme apresentava desde o princípio (antes mesmo de qualquer classificação).
      Ele sempre foi vendido como uma salada nerd, cheia de referências pops. Sangue e sexualidade (que aliás, tem muita) é o de menos aqui.

  • Thyago Santos  On 01/04/2011 at 22:22

    Ótima crítica! esse filme realmente é bom, mas o final não é desagradável assim….. Entretanto, podia dar uma melhorada mesmo.

  • Robson Reiz  On 07/04/2011 at 14:08

    Achei o filme que o filme trás uma mensagem boa, mas, falha miseravelmente em conseguir transmitir com clareza. O espectador “não nerd” não vai entender onde o diretor quis ir. Como você disse o filme não se sustenta pelo roteiro e sendo o roteiro a coluna vertebral de qualquer obra, o filme não se sustenta. O final do filme é patético, tenta fazer um mistériozinho sobre o destino de Babydoll.

    O filme começou absurdamente bom, com um introdução onde ninguém diz nada e mesmo assim entendemos tudo. Se o filme mantivesse o ritmo seria mais proveitoso, mas se tornou um filme desnecessário que em pouco tempo nem será lembrado.

    Ainda prefiro asistir um bom anime.

  • Rodrigo  On 10/11/2012 at 15:36

    Conheço muitos filmes e tau então não falarei de mim, mas sim da minha irmã. Ela também conhece porém não é nada nerd porém assistiu e entendeu muito bem o filme e adorou do começo ao fim. A mesma coisa com a minha amiga que assistiu e amou e ficou quase um ano comentando comigo (eu havia indicado pra ela). Enfim, o que quero dizer é que não é preciso ser nerd pra entender o filme e essa coisa de misturar isso com aquilo e achar que o final é merecido ou não, não passa de meras opiniões.
    Achei um filme MUITO criativo e imaginário e eu sentiria muita falta se este não fosse assim.
    Sua crítica teve partes boas porém, por merecido, metade dela deveria ser.. excluída (na MINHA opinião)[ou talvez eu não tenha entendido muito bem a crítica ?]
    Enfim, abraços;

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