Por que as coisas deviam ser fáceis de entender?

Hoje, inicio uma linha de posts escritos a convite por outros autores/ jornalistas/ blogueiros, sobre temas relevantes que abordo na Caixa, sobre criação ou processos criativos, reflexão, opinião. Pra gerar debate mesmo, ganhar a rede, ser discutido por aí. Não teremos uma periodicidade nessa categoria, mas teremos sempre que possível.

O primeiro da linha, é este, escrito por Jonas P., numa opinião em protesto sobre o abandono dos clássicos literários e uma reflexão interessante sobre a forma e conteúdo textual, equiparando-se ao sentimento da escrita. Recomendo pro leitor assíduo seja do que for. Para quem escreve, a leitura é obrigatória. Confira:

POR QUE AS COISAS DEVIAM SER FÁCEIS DE ENTENDER?
Por Jonas P. (@Pinkertonkid)

Why should things be easy to understand?

Thomas Pynchon disse isso. Pynchon é um cara estranho. Tipo, estranho de verdade – o cara não dá entrevistas, sua única aparição foi nos Simpsons (em mais de 40 anos), lança um livro por década e talvez seja o escritor vivo mais genial. O cara escreve de um jeito que vai dando voltas e voltas e sempre tira o leitor do caminho pra entrar em coisas ainda mais doidas. Quer um exemplo? Tyrone Slotrop, toda vez que tem uma ereção faz um míssil cair no lugar de suas conquistas. Ah, o cara também luta contra um polvo e mergulha numa privada – Trainspotting, alguém? É mais ou menos o que você encontra entre uma capa e outra de “Gravity’s Rainbow” e suas 800 páginas.

Mikey Welsh

Escolhi por começar com Pynchon – além do fato de ser um dos meus favoritos – porque a escrita de Pynchon, como diz a orelha da edição nacional, é a protagonista de sua narrativa. Nem sempre fácil ou simples. Você encontra coisas como digressões dentro de digressões e vai exigir uma leitura atenta e cheia de percalços. Mas se você superar isso, terá encontrado um dos melhores romances da sua vida e definitivamente engraçado, tipo, de rir alto. Imagine que um nariz gigante invade uma cidade e deve ser combatido com montanhas de cocaína. Algo do estilo. Mas como eu disse, Pynchon é difícil.

E desde quando isso deveria ser um empecilho? Um dos motivos pelos quais lemos livros: estilo. É o estilo, a forma usada pelo autor que nos segura a uma história. Se você realmente acha que gosta de “O Apanhador no Campo de Centeio” porque a história é legal, acho que existe algo a se notar. Não existe ali muita história. O que realmente te prende é o skaz – que vem do russo skazat e descreve uma forma oral de narrativa, significa algo como contar. É a cadência do Holden Cauldfield que te segura linha a linha, gírias, palavrões, repetições e fluxos de consciência. Talvez você leia de forma simples e fácil, mas saiba que ali existe um monte de coisa empregada para fazer a roda girar. É esse trabalho que faz com que Salinger seja superior a outros que escreveram o mesmo estilo. É por causa da técnica empregada que encontramos um acesso tão simples a Hemingway – que você não tomaria por especial se não notasse todo o trabalho que o velho Ernest teve pra enfiar tudo ali como está.

Gravity's Rainbow, de Thomas Pynchon

Poderíamos citar ainda Jeffrey Eugenides e seu primeiro romance “As Virgens Suicidas” – é a forma que ele escolheu pra narrar que nos segura na história, a narrativa de recordação, como uma montagem de Eisenstein que vai formando uma fotografia maior, uma coesão que vem de destroços.

Eu geralmente acredito que a literatura serve pra nos confortar e nos fazer entender ainda mais o ser humano e o mundo ao redor, tipo, E.M. Forster em Aspectos do Romance dá uma explicação bacana sobre porque o homo fictus é tão importante: porque podemos saber tudo de um personagem, tudo, pensamentos, atitudes, intenções, como uma autópsia escrita. E se nem sempre é fácil entender as pessoas de verdade, nem sempre vai ser fácil entender a ficção – mas sempre sugiro que tenha perseverança e um dia você vai ver que mesmo os clássicos são apenas livros e que eles tem muito a passar, são trabalhos nos quais pessoas depositaram as vezes uma vida inteira de esforços em busca daquela voz, daquele tom. Literatura é feita de palavras, é um jogo de palavras, pra brincar com o G.R.R. Martin.

Eu sempre penso no início de “Onde Encontrar a Sabedoria” do Harold Bloom quando penso no que busco como leitor:

Recorro apenas a três critérios em relação ao que leio e ensino: esplendor estético, força intelectual e sapiência. Pressão social e modismos jornalísticos  conseguem obscurecer, durante algum tempo, tais padrões, mas Obras Datadas jamais sobrevivem. A mente sempre volta às suas próprias necessidades de beleza, verdade, discernimento. – Onde Encontrar a Sabedoria, pg 13.

Bloom é um cara tenso de vez em quando e não dá pra concordar com tudo o que ele diz, mas dá pra fechar os olhos e ir tranqüilo nessa. Essa mistura de esplendor estético, força intelectual e sapiência nem sempre vai ser muito fácil de absorver num livro, mas citando Pynchon mais uma vez: Por que as coisas deveriam ser fáceis de entender? Coisa nenhuma que vale a pena na vida é fácil. Não ler Quixote, Casmurro, Crônica da Casa Assassinada ou mesmo o Antigo Testamento e Kafka porque não imediatamente digeríveis é ignorar um legado maravilhoso e que pertence a todo mundo, que nem a Ana Maria Machado, uma das melhores escritoras infantis do mundo, diz em “Como e Por Quê Ler os Clássicos Desde Cedo”.

A literatura deve ter a função de nos desafiar, seja a infantil – O Vento nos Salgueiros (Grahame), Chapeuzinho Amarelo (Chico Buarque), Winnie-the-Pooh (Mine), Alice no País das Maravilhas (Carroll), Alice no Espelho (Laura Bergallo) – ou a adulta pop ou não – Irvine Welsh, Kerouac, Henry James. Porque eles tem o poder de nos fazer ver o mundo de forma diferente. Se você lê “Enquanto Agonizo” do Faulkner, você não sai a mesma pessoa. Você simplesmente não sai, porque você esteve ali com os Bruden, viu que Addie era um peixe, conheceu aquelas mentes fragmentadas e completou as partes que não estavam lá. No meio daquele monte de monólogos, você participou de tudo, teve que se virar pra lidar com o jeito da escrita, mas saiu com o sentimento de recompensa que acompanha isso. Não é confortável, não é sempre agradável, mas literatura é o cão sem plumas do Cabral de Melo Neto, faz curvas e nem sempre faz o sentido claro, brilhante e de cara que você procura, mas você mesmo sai depois e acha o seu sentido. Jewel era o mais são? Hedda Glabber – Ibsen – é uma vaca? Você decide.
Não precisa que esteja ali.

William Faulkner

Os caras que realmente fazem a diferença seja na Fantasia – China Mièville, Mervyn Peake, Michael de Larrabeiti – ou não – Ian McEwan, Coetzee, Saramago e Amós Oz, nem sempre são gentis numa primeira leitura, mas ganham a sua confiança e você vê que aquele velho que fala esquisito tem muito a dizer.

Os livros legais de verdade atravessam os mais diferentes contextos e estilos para se verem e verem o passado. Não existem mais muitas histórias para serem contadas, então o lugar de combate da literatura teve que passar a ser a forma – o como você conta, o que você coloca lá, o diálogo com o que veio antes e durante.

Eu amo a literatura pop e divertida e tudo mais – e filmes como “Uma Babá Quase Perfeita”, “Free Willy” e “Bud”. Sou o fã número um de Ártemis Fowl, Desventuras em Série e outros do tipo, mas fico triste de verdade quando vejo que os “poderosos mortos” estão sendo cada vez mais ignorados até mesmo por gente que deveria lê-los, escritores e estudantes de Letras.

Por que ler os clássicos? Pergunta o título do livro e Ítalo Calvino responde bem simples: ler os clássicos é melhor do que não lê-los.

Começando com aquarelas e colagens, Mikey trabalhou na arte até os 19 anos de idade, quando iniciou sua carreira musical. Com 30, ele havia conseguido destaque como o baixista da banda Weezer, e após sofrer um colapso nervoso, se dedicou à pintura em tempo integral. Desde 2001, Mikey teve várias exposições de sucesso, vendendo seu trabalho para colecionadores e comissões de trabalho privado.
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Comentários

  • José Roberto Vieira  On 09/03/2011 at 18:45

    Tá aí.. falou tudo mesmo… hora de aprender, crianças, antes de criticarem, aprendam a porra das tradições!

  • Alexandre  On 09/03/2011 at 19:39

    Bom, eu vou contar minha experiência. E as pessoas que me conhecem vão estranhar profundamente isso, mas acho que isso explica.
    Quando eu tinha uns nove anos mais ou menos, comecei a ler. E comecei bem, com o Tom Sawyer do Mark Twain – o primeiro e segundo livro de verdade que li na vida, porque eu o reli assim que terminei de ler, para que vocês sintam o impacto que ele teve em mim. Eu queria ser Tom Sawyer, fugir e voltar pra casa sem culpa, roubar um beijo da menina mais bonita da escola, decidir bancar o pirata porque deu na telha fazer isso, voltar por cima, surrar os meninos que viessem encher meu saco (é importante citar isso: o século vinte criou uma cultura de garotos “comuns” que para se tornar identificáveis, eram vítimas de valentões; Sawyer estava acima dos valentões, ele era mais perigoso do que eles, e por isso ele estava acima de todos os “garotos como eu e você” que a literatura juvenil nos mostrou daí em diante!) e ainda voltar pra casa com um tesouro!
    Mas o livro seguinte foi “A Revolução dos Bichos”, de Orwell. Um livro para adultos, em uma estrutura fabular de fácil compreensão. Provavelmente foi por causa dele que comecei, aos dez anos mesmo, a me interessar por um dos assuntos mais espinhosos e chatos para um garoto: a política.
    E o terceiro dessa grade de formação básica foi “O Sol é Para Todos”, de Harper Lee. É fabuloso como ele tem duas camadas de leitura ao lidar com um tema espinhoso: o ponto de vista de uma menina de treze anos (tão moleca que era impossível um garoto como eu não enxergá-la como “uma de nós” – a própria garota tinha esse perfil) sobre como a vida da família dela de pernas para o ar quando seu pai, um advogado, tem que defender um negro, no sul dos estados unidos, de uma acusação de crime de estupro. Por acompanhar o ponto de vista de uma criança, uma criança pode ler esse livro sem entender parte do que está acontecendo, até porque ela também não entende bem, e somos colocados nesse estado de compreensão parcial, e lidamos bem com isso. Quando lemos depois de crescidos, entendemos bem tudo, e damos atenção à “trama adulta” – é como se o que era tom virasse subtom, e vice-versa, dependendo da idade. É preciso muita habilidade narrativa para fazer uma coisa dessas.
    Todos são livros bem diretos, bom dizer.
    Claro que isso foi só no começo e acabei encarando os clássicos e os contemporâneos importantes. Li Balzac, li Gunther Grass, li Faulkner (e fiz um esforço monstruoso para levar o “Fábula” até o fim), li o diabo a quatro. li E foi bom para mim. No entanto, eu percebi em algum ponto da virada da adolescência para a idade adulta que eu havia me tornado culturalmente pedante. E pessoalmente eu percebi o que era esse pedantismo cultural. Não se trata de ler os clássicos – eu pelo menos tenho uma boa irritação com o Harold Bloom. Os “contos para crianças extremamente inteligentes” que ele selecionou são uma ótima forma de afastar as crianças da literatura. Porque ele parte do principio que os apreciadores seriam inteligentes, enquanto os que não apreciarem… não custa dizer que ele fez isso como parte da reação ao horror que ele sentiu da série Harry Potter.
    Que levou muito mais garotos aos livros do que todos os livros que ele acha geniais.
    Eu pessoalmente acredito muito em um discurso de aproximação e de clareza. Acho bom que as pessoas leiam. E acho importante que se fale a linguagem delas. Bloom detonou “modismos jornalísticos”, mas ainda acho que Hemingway chuta traseiros até hoje com linhas secas e diretas.
    Quanto a “ser difícil”, isso é decisão do próprio autor. Mas um autor que opta por esse caminho não deveria reclamar caso seja menos lido do que poderia.
    Acredito que existem dois caminhos básicos a se seguir: o do meio e da mensagem. Eu hoje recomendei uma hq mais restrita no twitter, mas deixei claro que só recomendava para desenhistas e gente mais interessada em narrativa e natureza gráfica dos mangás. Não é para todos.
    Eu li o que tinha que ler e fiquei feliz por tê-lo feito. Mas também fiquei feliz em libertar a mim mesmo da obrigação de ser “mais inteligente”, ou “mais desafiado” la pelos vinte anos, após uma adolescência que só não foi totalmente cult porque graças a Deus, a Marvel/DC daquele tempo tinha muito material pop e bacana. Mas eu me permiti apreciar um filme hipercinético e divertido como Tai-Chi com o Jet Li – e hoje posso admitir publicamente que acho os filmes do Jim Jarmusch um saco, e curtir muito um livro como “Os Portões de Roma” do Iggulden, ou a série Sharpe do Cornwell.
    Não vou tecer mais conclusões; só posso falar por mim e acho que minha experiência pessoal são os dois dedos de prosa que tenho a oferecer nesse assunto. O resto, discutam a vontade. 🙂

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